NÃO HAVERÁ MAIS HISTÓRIA SEM NÓS
Imagens assustadoras da devastação da floresta amazônica pontuam o filme-ensaio Não Haverá Mais História sem Nós, de Priscilla Brasil e Raphael Uchoa. A abordagem é pretensamente autóctone, já que a diretora é amazônida, e o narrador assim se coloca em busca de entender as origens de um pensamento nefasto sobre sua região.
O filme se inicia com um aviso aos navegantes: “Este documentário não é entretenimento. É um manifesto”. A certo ponto, os realizadores inserem questionamentos alheios a sua postura durante o processo de realização. Algumas dessas críticas podem até ser compartilhadas pelo espectador. Afinal, o manifesto assume um discurso decolonial fechado na forma de tese. No fundo, é um grande texto oralizado e ilustrado por imagens poderosas.
Não fica muito clara a instância de enunciação, mas suponho que sejam Priscilla e Raphael. Eles tentaram consultar e filmar o acervo coletado no Brasil pelos viajantes alemães Carl Friedrich Philipp von Martius e a princesa Teresa da Baviera na época colonial. Os museus de Munique, porém, não franquearam o acesso. A indignação dos pesquisadores é combustível para esse libelo contra a apropriação de bens naturais – inclusive de seres humanos – para exposição na Europa. Nesse sentido, o filme se soma ao menos incisivo, embora mais consequente, O Tesouro Natterer, vencedor do É Tudo Verdade de 2024.
Não Haverá mais História sem Nós remonta a Nietzsche, Wagner e aos tempos em que pensadores alemães ajudaram a formar uma ideia hierarquizante das raças, situando os não brancos em posições inferiores biológica e culturalmente. O filme sustenta a tese de que a classificação de pessoas, assim como de animais e plantas, se prestou a justificar o saque e a exploração de negros e indígenas, cujos saberes iam sendo sequestrados e apagados. Fundava-se um discurso sobre o Brasil e especificmente sobre a Amazônia como manancial a ser explorado indiscriminadamente. O assunto foi bem estudado por João Moreira Salles no livro Arrabalde.
Entre Munique e a Amazônia, o filme constrói uma permanente dialética entre texto e imagens, que ora se ilustram, ora se ironizam mutuamente. Invisíveis na tela, os realizadores se lançam na contramão das viagens colonialistas e filmam a Alemanha com olhar crítico. Não poupam acusações ao sentimento histórico de superioridade e posse dos europeus, que hoje, com a imigração, ainda se recusariam a admitir que não são mais apenas brancos.
Nessa investida crítica, causa surpresa o uso massivo e solenizante de música clássica europeia, que só nos minutos finais cede lugar a Villa Lobos. O uso de voz over desencarnada, embora situada como autóctone, se mostra um tanto impositivo, como na “voz de Deus” dos documentários tradicionais. Também o uso frequente de filmagens aéreas totalizantes, ao mesmo tempo que expõe a degradação da mata, institui um certo discurso de poder cinematográfico que problematiza a perspectiva crítica ao poder.
São questões que me ocorreram enquanto via o filme, mas não invalidam o seu empenho intelectual em encontrar uma voz de reivindicação dos direitos amazônicos. Além de um manifesto, temos aqui um exercício inteligente e estimulante de criação no campo do filme-ensaio.
>> Não Haverá Mais História sem Nós está nos cinermas.




